“Eu ando na minha, quieto. Parece que desisti, mas na verdade esse é o meu jeito de esperar.”— Gabito Nunes.
(Fonte: inverbos)
“Muito teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar na ponta dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um certo instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. (…) Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo (…)”— Hermann Hesse (O Lobo da Estepe - 1927)
“Solidão é independência, com ela eu sempre sonhara e a obtivera afinal, após tantos anos. Era fria, oh!, sim!, mas também era silenciosa e grande como o frio espaço silente em que giram as estrelas.”— HESSE, Hermann. O Lobo da Estepe
“Venho manifestando já por vezes minha opinião de que cada povo e até cada indivíduo, em vez de sonhar com falsas “responsabilidades” políticas, devia refletir a fundo sobre a parte de culpa que lhe cabe da guerra e de outras misérias humanas, quer por sua atuação, por sua omissão ou por seus maus costumes; este seria provavelmente o único meio de se evitar a próxima guerra.”— “O Lobo da Estepe” - Hermann Hesse
A verdade, só a conhece quem foi afetado por ela, penso eu; e se desejar comunica-la aos outros, será de pronto transformado num mentiroso. Tudo o que há para comunicar só poderá ser falsidade e falsificação, falsidade e falsificação são sempre, portanto, tudo quanto se pode comunicar. O anseio pela verdade, como qualquer outro, é o caminho mais curto rumo ao falseamento e à falsificação de um fato. E escrever sobre uma época, um período da vida, um período da existência – não importa quão longínquo o período, quão breve ou longo ele tenha sido – é coletar centenas, milhares, milhões de falsidades e falsificações conhecidas daquele que escreve ou descreve como verdades, e nada além de verdades. A memória atém-se aos acontecimentos exatos e à cronologia precisa, mas o que resulta disso é algo bem diferente do que aconteceu de fato. O descrito clarifica algo que decerto corresponde ao desejo de verdade daquele que descreve, mas não à verdade em si, porque essa não é possível comunicar. Descrevemos um objeto e acreditamos tê-lo feito em consonância com a verdade e fielmente a ela, mas somos obrigados a constatar que não se trata da verdade. Esclarecemos uma questão qualquer e percebemos, então, que a questão esclarecida não é, nunca é, aquela que pretendíamos esclarecer, e sim outra. Temos de admitir que jamais comunicamos algo que correspondesse à verdade, mas da tentativa de comunicar a verdade nunca desistimos durante toda a vida. Queremos dizer a verdade e, no entanto, não dizemos a verdade. Descrevemos algo buscando fidelidade à verdade e, no entanto, o descrito é outra coisa que não a verdade. Teríamos de contemplar a existência como o estado de coisas que desejamos descrever, mas, por mais que nos esforcemos, o que contemplamos por intermédio do descrito nunca é esse estado de coisas. Uma tal constatação haveria de nos ter feito desistir há muito tempo de pretender escrever a verdade, o que significa que já deveríamos ter desistido há tempos da escrita em si. Como não é possível comunicar, ou seja, mostrar a verdade, nós nos contentamos em pretender escrever e descrever a verdade, bem como em dizer a verdade, mesmo sabendo que a verdade nunca pode ser dita. Do ponto de vista lógico, a verdade que conhecemos é a mentira que, incapazes que somos de contorna-la, se faz verdade. O que está sendo descrito aqui é a verdade, e no entanto não é verdade, porque não pode ser a verdade. Em toda a nossa existência de leitores, jamais lemos uma verdade, ainda que com frequência sejam fatos as coisas que lemos. O que lemos é, pois, invariavelmente a mentira como verdade, a verdade como mentira, etc. Tudo depende do que queremos, se queremos mentir ou dizer e escrever a verdade, ainda que jamais possa vir a ser a verdade, ainda que jamais seja a verdade em si o que dizemos e escrevemos. Ao longo da vida, eu sempre quis dizer a verdade, embora saiba hoje que era tudo mentira. Em última instância, o que conta é apenas o conteúdo de verdade da mentira. A razão já me proibiu há muito tempo de dizer e escrever a verdade, porque fazê-lo é apenas dizer e escrever uma mentira, mas, para mim, escrever é necessidade vital, e é por isso mesmo, por esse motivo, que escrevo, ainda que tudo que escreva nada mais seja do que mentira que, por meu intermédio, é transmitida como verdade. Podemos, é certo, exigir a verdade, mas a honestidade nos mostra que a verdade não existe.
(Thomas Bernhard, “Origem”, Cia das Letras, páginas 243-244)
(Fonte: recaption, via compulsive)
(Fonte: destroymylife, via compulsive)
UndergRound CommunikAtion: The Frankfurt Independent Compilation
Nihilistick Noise
1987
(via areyou-stillawake)
(Fonte: mojavemadness, via vampycandy)
(Fonte: weheartit.com, via vampycandy)